Como funciona o INSS progressivo
POR Thiago Diogo · ATUALIZADO EM
Quase todo mundo que olha a tabela do INSS pela primeira vez faz a mesma conta errada: pega o salário, encontra a faixa em que ele cai e multiplica pela alíquota daquela faixa. Se o salário é de R$ 5.000 e a faixa é a de 14%, o desconto seria de R$ 700. Não é. O desconto real fica em torno de R$ 500, e a diferença não é arredondamento, é a forma como a contribuição foi desenhada.
Cada pedaço do salário paga sua própria alíquota
Desde 2020 o INSS do trabalhador com carteira assinada é progressivo por faixas. Isso significa que a alíquota não incide sobre o salário inteiro: ela incide apenas sobre a parte do salário que cai dentro de cada faixa. O salário é fatiado, cada fatia paga o seu percentual, e o desconto é a soma dessas parcelas.
A regra veio com a reforma da Previdência. O artigo 28 da Emenda Constitucional 103/2019 fixou as quatro alíquotas e, no parágrafo primeiro, mandou aplicá-las de forma progressiva, com cada alíquota incidindo apenas sobre a faixa de valores compreendida nos respectivos limites. É essa frase que transforma a tabela numa escada.
Pense numa escada. O primeiro degrau vai até o salário mínimo e cobra 7,5%. O segundo pega o que passa dali até o limite seguinte e cobra 9%. O terceiro cobra 12%, e o quarto, 14%. Quem ganha R$ 5.000 sobe os quatro degraus, mas paga 14% apenas sobre o trecho final do salário, não sobre os R$ 5.000.
A alíquota da sua faixa é a alíquota marginal: ela vale para o próximo real que você ganhar, não para tudo o que você já ganha.
Por isso existe a alíquota efetiva
Se você dividir o desconto pelo salário bruto, chega à alíquota efetiva, o percentual que de fato saiu do seu bolso. Ela é sempre menor que a alíquota da faixa em que você está. Num salário de R$ 5.000, a faixa é de 14%, mas a efetiva fica perto de 10%. Num salário de R$ 3.000, a faixa é de 12% e a efetiva fica em torno de 8%.
Com os valores de 2026, um salário de R$ 5.000,00 desconta R$ 501,51: são 7,5% sobre os primeiros R$ 1.621,00, 9% sobre o trecho seguinte até R$ 2.902,84, 12% até R$ 4.354,27 e 14% só sobre os R$ 645,73 finais. A soma das quatro parcelas é o desconto, e nenhuma delas cobrou 14% do salário inteiro.
Essa diferença tem uma consequência prática que costuma passar despercebida: um aumento nunca é engolido pelo INSS. Como só o trecho novo do salário paga a alíquota mais alta, receber mais sempre significa levar mais para casa, mesmo quando o aumento empurra você para a faixa seguinte.
O teto trava a contribuição
A última faixa termina no teto do salário de contribuição. Nada acima dele contribui, o que significa que existe um valor máximo de desconto, e quem ganha muito acima do teto paga exatamente o mesmo que quem ganha o teto. É por isso que a alíquota efetiva cai conforme o salário sobe: o desconto trava, mas o salário continua crescendo.
O outro lado dessa moeda é que o teto de contribuição também limita o valor dos benefícios do INSS. Quem quer se aposentar com renda acima desse limite precisa de previdência complementar, porque o regime geral não paga mais que o teto.
As faixas mudam todo ano
Os limites de cada faixa e o teto são reajustados no início de cada ano por portaria interministerial publicada no Diário Oficial da União. As alíquotas, 7,5%, 9%, 12% e 14%, têm se mantido estáveis; o que muda são os valores que separam uma faixa da outra. Por isso uma calculadora precisa dizer de qual ano é a tabela que está usando.
O reajuste também está na emenda: o parágrafo segundo do mesmo artigo 28 manda corrigir os valores das faixas na mesma data e pelo mesmo índice dos benefícios da Previdência. Por isso os limites publicados na portaria de janeiro mudam todo ano sem que nenhuma lei nova precise ser votada, enquanto as quatro alíquotas seguem onde estão desde 2019.
Salário líquidoQuanto sobra do salário depois do INSS e do Imposto de Renda, faixa a faixa.Na calculadora de salário líquido você vê essa escada montada com o seu salário: quanto caiu em cada faixa, quanto cada uma cobrou e qual foi a alíquota efetiva no fim. É a forma mais rápida de conferir se o desconto do seu holerite bate com a tabela oficial.
Os resultados são estimativas de referência, calculadas com as tabelas oficiais vigentes. Não substituem o holerite, o parecer de um contador nem o cálculo homologado: convenções coletivas, benefícios e descontos próprios da empresa alteram os valores.
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